Críticas
CRÍTICA: Maria e João – O Conto das Bruxas (2020)

MARIA E JOÃO – O CONTO DAS BRUXAS é inspirado num dos contos mais conhecidos dos irmãos Grimm que já foi adaptado várias vezes pras telas. Até uma versão estilizada estrelando o Gavião Arqueiro dos Vingadores já teve! Agora é a vez de Osgood “Oz” Perkins dar sua visão à história optando pelo horror de fato nos oferecendo uma fábula cruel e cabulosa típica dos contos originais.
Antes é preciso dizer que não se trata de uma adaptação fiel ao conto dos irmãos Grimm e isso não é ruim. Embora preserve a premissa base sobre os irmãos famintos e abandonados na floresta que são acolhidos por uma bruxa que quer devorá-los, a primeira mudança vem no título com o nome de Maria vindo antes de João. Muda-se também o modo como alguns eventos acontecem e o filme traz elementos interessantes que dão mais peso e profundidade à trama e seus personagens.

Maria é o foco aqui. O longa é praticamente narrado pela moça que começa nos contando sobre a lenda de uma garotinha de chapéu rosa que fora curada quando bebê por uma bruxa e ganhou poderes malignos. Por conta disso foi expulsa e abandonada na floresta pelos aldeões. Em pouco tempo conhecemos a já adolescente Maria e seu pequeno irmãozinho João que vivem em extrema miséria com a mãe, que já não bate bem das ideias, expulsando os dois de casa e obrigando-os a vagar pela floresta.
Com fome, a dupla passa por maus bocados até que encontram uma casa com uma mesa farta e uma senhora acolhedora e muito estranha. Não demora pra Maria perceber que tudo tá bom demais pra ser verdade e perceber a roubada em que se meteram. Ao mesmo tempo, ela descobre mais sobre si mesma do que poderia imaginar.
O roteiro de Rob Heyes é repleto de bons diálogos, principalmente os que envolvem Holda, a bruxa cabulosa vivida por Alice Krige (TERROR EM SILENT HILL), e Maria, aqui interpretada pela Sophia Lillis (IT: A COISA), sempre falando do poder feminino e do mal que os homens exercem sobre as mulheres. A trama gira em torno delas e é praticamente narrada em off pela própria adolescente, algo que pode soar didático em certos momentos, mas, como o texto é bom, pra mim não chegou a ser um incômodo.

Perkins reforça aqui sua capacidade de construir cenas lindas que vão além da beleza estética. É interessante perceber certas dicas visuais – algumas discretas, outras nem tanto – que o diretor nos dá sobre Maria. Vale ficar atento a alguns elementos ao fundo, algumas ilustrações bizarras e até mesmo, em certo momento, uma capa preta nada discreta. Seria essa uma autorreferência ao título do seu primeiro longa (ENVIADA DO MAL)?
Visualmente, MARIA E JOÃO é espetacular. Belo trabalho de Galo Olivares, que trabalhou com Alfonso Cuarón em ROMA. Aqui as cores são chamativas e alternam entre o forte contraste de tons: ora com amarelos e pretos; ora com azul e laranja. Vale destacar também as formas triangulares, as silhuetas e todo design de produção. Da casa da bruxa às árvores na floresta, tudo é muito vistoso e macabro ao mesmo tempo. A trilha sonora tem um papel importante pra toda atmosfera com uma mescla de sussurros, música folk e até sintetizadores que surgem pontualmente dando um ar bizarro e sinistro às cenas.

Apesar dos vários pontos positivos já citados, Perkins acaba não ousando tanto quanto MARIA E JOÃO merecia, visto todo conceito construído durante grande parte do longa. Fica claro que este é o trabalho mais comercial do diretor, levando em conta seus dois longas antecessores que me parecem ser mais fiéis as suas propostas do início ao fim. O fato é que Osgood Perkins é um diretor que vem comendo pelas beiradas e, aos poucos, firmando seu nome no cinema de horror atual.
Bem escrito e dirigido, MARIA E JOÃO tem muitos bons momentos, mas confesso que fiquei frustrado com a falta de um momento realmente catártico. Mesmo assim, para este que vos escreve, este é o melhor filme do gênero até o momento neste ano de 2020 e vale muito a pena, se possível, ser visto na tela do cinema.

Título original: Gretel & Hansel
Direção: Osgood Perkins
Roteiro: Rob Hayes
Elenco: Alice Krige, Sophia Lillis, Samuel Leakey, Charles Babalola
Origem: Canadá, Irlanda, EUA, África do Sul
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Críticas
CRÍTICA: Ataque Brutal (2026)

A Netflix ataca mais uma vez com um filme de tubarão: “Ataque Brutal” (Thrash). Anunciado meio que de surpresa no mês passado, a gigante do streaming tenta novamente emplacar um sucesso com o terror dos mares e rios. Depois de ter lançado, em 2024, “Sob as Águas do Sena“, agora ela traz o diretor do divertido “Zumbis na Neve” (2009) para comandar essa empreitada.
Vamos à história… Uma pequena cidade na costa dos EUA tem sua rotina drasticamente mudada quando um furacão de escala 5 avança em sua direção. A grande maioria dos moradores decide evacuar, mas alguns desafortunados acabam ficando e terão de lidar com algo pior que a destruição causada pelo fenômeno da natureza: famintos tubarões que aparecem nas ruas inundadas.

Logo de cara, não dá para não lembrar do bem superior “Predadores Assassinos” (2019), cuja premissa é bem similar. A diferença maior entre os longas é que o filme dos crocodilos é uma aula de tensão e horror, enquanto este exemplar com tubarões serve mais como uma paródia.
Os personagens são rasos e as situações vivenciadas por eles são bem clichês e previsíveis; não criei vínculo com nenhum. O fato de saber o destino dos protagonistas tira qualquer chance de criar tensão, além de o roteiro ser muito didático e ter alguns diálogos bem ruins.

As cenas de ataques são fracas; geralmente, as águas ficam vermelhas e as pessoas são jogadas e arrastadas de um canto a outro. Poderia ser mais gore.
Os efeitos são, no geral, aceitáveis, mas há momentos onde o fundo verde grita. Isso pode tirar a imersão de muitos, mas não tirou a minha porque já estou acostumado a cada tosquice de filme de tubarão que me sinto meio “vacinado”. “Ataque Brutal” é um filme fraco que poderia ter sido muito mais, só que, por ser bem curto, talvez entregue uma possibilidade de diversão rasteira.
Título original: Thrash
Direção: Tommy Wirkola
Roteiro: Tommy Wirkola
Elenco: Phoebe Dynevor, Dijimon Hounsou e outros
Ano de lançamento: 2026
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Críticas
CRÍTICA: Eles Vão Te Matar (2026)

Mulher chega em um prédio sinistro e se torna vítima de um complô satanista. Bem, isso aí a gente vê no cinema desde “O Bebê de Rosemary“. Mas nunca de uma forma tão “divertida” como agora em “Eles Vão Te Matar” (They Will Kill You).
Tentando se equilibrar num limite tênue entre humor, terror e ação, o longa de Kirill Sokolov leva Asia Reaves (Zazie Beetz) até o centenário Virgil, um imóvel que esconde segredos entre seus andares. E no gerenciamento de empregados, hóspedes e seguidores de satã está Lily Woodhouse (Patricia Arquette) dando as ordens.

Se você viu o trailer, vai perceber que ali estão ótimas cenas de luta e ataques de uma forma escrachada e devidamente bem coreografadas. São sequências em que Asia tem que literalmente brigar para sobreviver diante dos que querem lhe matar, conforme anuncia o título do filme. Algo como “Constantine” meets “Kill Bill“.

Montado um pouco como se fosse um videogame com várias fases em que cada andar do Virgil apresenta um novo desafio, “Eles Vão Te Matar” traz na gênese esse terror de sobrevivência com uma temática sobrenatural/diabólica regado a litros de sangue jorrando na tela. Não tem lá uma crítica social foda nem nada muito inspirador, mas funciona mais do que a continuação que fizeram para “Casamento Sangrento“, em que inventaram uma motivação que não cola.

O diretor russo consegue extrair risadas em meio a cenas grotescas e mostra como a protagonista vira a verdadeira ameaça para seus algozes, utilizando qualquer arma que esteja à mão. Essa sarcástica aventura dura menos de duas horas e mostra que é possível fazer algo assim de forma despretensiosa sem enrolar demais até chegar na catarse final.
* Filme visto em Cabine de Imprensa promovida pela Espaço Z
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CRÍTICA: A Noiva! (2026)

Passados dois séculos, Frankenstein segue vivaço na cultura pop. Menos de seis meses depois do lançamento do filme de Guillermo del Toro, chega aos cinemas A Noiva! (The Bride!). O longa, escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal, revisita o universo de Mary Shelley em um thriller noir carregado de empoderamento feminino.
Longe das montanhas e castelos decadentes do horror gótico, a história de A Noiva! começa na glamurosa Chicago da década de 1930. Ao aprontar umas e outras em um jantar repleto de homens perigosos, a jovem Ida (Jessie Buckley) acaba assassinada pelos capangas do chefe da máfia local.

Nesse mesmo espaço de tempo, o monstro de Frankenstein (Christian Bale) chega à cidade em busca da Dra. Euphronius (Annette Bening), renomada especialista em “reanimação”. Com várias súplicas e chantagens sentimentais, Frank convence a cientista a lhe ajudar na missão de conseguir uma companhia amorosa.
Assim, Ida acaba desenterrada e trazida de volta à vida, sem memória, predestinada a subir ao altar. A noiva, porém, é fodona e não está muito disposta a ser bela, recatada e do lar. Sua não submissão, no entanto, desperta ainda mais o interesse de Frank. Infelizmente, após brigarem em um inferninho local, o casal passa a ser perseguido pela polícia e embarca numa fuga pelos EUA.
Como esperado, Maggie Gyllenhaal usa os monstros de Shelley (e seus, agora) para montar uma fábula sobre os rejeitados pela sociedade, sobretudo os do sexo feminino. Seria piegas, se não fosse pelo roteiro esperto, que não deixa nada cair no melodrama. A protagonista não quer favor de ninguém, ela quer exatamente o que lhe pertence: o protagonismo.

Com esse papel, Jessie Buckley entra de vez no panteão das atrizes de destaque da atualidade. Arrastando tudo nesta temporada de premiações, por seu trabalho em Hamnet, a irlandesa está totalmente elétrica (com o perdão do trocadilho), dos trejeitos do que seria uma morta-viva reanimada, passando pelo visual e sotaque carregado. Em pouco mais de duas horas de filme, sua personagem vai de desapegada, à amante amorosa e a líder revolucionária, sem perder a personalidade do caos em pessoa.
Ao seu lado, Christian Bale entende perfeitamente seu status de coadjuvante e entrega um Frankenstein apaixonado e porradeiro na medida certa. Outra figura secundária de destaque é a detetive Myrna Mallow (Penélope Cruz), que serve para escancarar como o machismo não persegue apenas os feios e marginalizados.

Da metalinguagem, com a própria Mary Shelley dando as caras na trama, até diversas referências a clássicos de terror, Gyllenhaal se joga de cabeça no cinema de gênero como uma fã apaixonada. Em um determinado momento, Frank e Ida entram em uma sessão que exibe um longa com Bela Lugosi e saem correndo de lá, perseguidos por uma multidão que carrega tochas. Absolute fan service!
A Noiva tem pouca presença no livro de 1818 (nem chega a ganhar vida), mas conquistou notoriedade com a figura de Elsa Lanchester, no clássico de 1935. De lá para cá, ganhou versões alternativas, como em A Prometida (1985) e Penny Dreadful (2014). Já seu visual dos Monstros da Universal inspirou personagens de algumas animações ao longo dos anos, tendo Comando das Criaturas como o exemplo mais recente.
Com Jessie Buckley, ela tem agora sua variante mais marcante depois de quase um século. Interessante esse filme chegar aos cinema quando os Epstein Files e inúmeros casos de violência contra mulheres estampam as manchetes do Brasil e do Mundo. Queremos e precisamos de uma Noiva caçadora de red pills.
NDE: Tem uma cena pós-crédito
Direção: Maggie Gyllenhaal
Roteiro: Maggie Gyllenhaal
Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale e Penélope Cruz
Origem: EUA
* Filme assistido na Cabine de Imprensa promovida pela Espaço Z
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