Dicas
LIVRO: Tom Savini – Vida monstruosa

[Por Frederico Toscano]
Se você curte o horror produzido em Hollywood, principalmente os clássicos das décadas de 1980 e 1990, ao menos já ouviu falar de Tom Savini. Foi ele o responsável pela maquiagem e efeitos especiais práticos de produções que estão gravadas para sempre nas retinas dos fãs, como Despertar dos Mortos, Sexta-Feira 13 (e algumas de suas sequências), O Massacre da Serra Elétrica 2 e mais. Mas, um tanto curiosamente, Savini possui ainda mais créditos como ator, e pode ser visto em filmes como Cavaleiros de Aço (atuando ao lado de um novato aí, um tal de Ed Harris), Um Drink no Inferno (ele é Sexy Machine, o cara que tem uma pistola em forma de bilola entre as pernas) e Grindhouse (o xerife que acabada despedaçado por zumbis).
Em frente ou atrás das câmeras, nem todas as películas eram de horror, como foi o caso do drama Os Amantes de Maria (como maquiador, tendo Nastassja Kinski e Robert Mitchum no elenco) e do romântico As Vantagens de ser Invisível (interpretando um professor). Além disso, o homem é roteirista, dublador, fotógrafo, dublê, professor e mágico literalmente de carteirinha. Isso é que é CV.

Mas ele, junto de Rick Baker, é principalmente lembrado pelos efeitos de horror mesmo, um interesse que surgiu ao assistir os filmes de outro mestre, Lon Chaney, quando Savini era criança em sua Pittsburgh natal, ali pela década de 1950. Descendente de italianos, viveu uma infância e adolescência de pobreza (dentro dos padrões dos EUA, claro), com uma casa cheia e uma família amorosa. Guardava lá seus trocados para assistir filmes no centro da cidade, sessões duplas de terror que custavam centavos, e foi se apaixonando pela arte: maquiava os amigos mais corajosos e, mais tarde, entrou na cena local de teatro.
A primeira parte de “Tom Savini: vida monstruosa”, da editora Darkside, é mesmo uma autobiografia, onde ele vai falando, em ordem cronológica, de tudo o que aconteceu na sua vida, coisas maravilhosas, mas algumas terríveis também. Aos sete anos, por exemplo, ele caminhava pela rua quando um homem em um carro encostou e ofereceu carona para que fossem juntos “comprar sorvete”. Tom foi levado até um matagal em plena luz do dia e, infelizmente, dá para adivinhar o que aconteceu depois.

Incrivelmente, a experiência parece ter deixado poucos traumas, com Savini se limitando a dizer que, após refletir sobre o episódio, já adulto, passou a compreender a importância do consentimento em sua relação com as mulheres. Já na década de 1960, desesperado por grana e sem muita perspectiva, fez o que o que muitos rapazes faziam na época, se alistando para lutar no Vietnã. Lá, cansou de ver corpos ensanguentados, queimados, despedaçados, pútridos, geralmente de jovens parecidos com ele, e essas imagens acabariam influenciando seu trabalho posterior no cinema.
Foi Sexta-Feira 13 que fez a carreira dele deslanchar e, a partir daí, seguiu trabalhando regularmente em Hollywood. Mas também montou a própria escola de maquiagem e efeitos especiais, criou próteses assustadoras para lojas de brinquedos, planejou atrações de horror em parques e, num dos seus créditos mais bacanas, confeccionou a nova máscara de Corey Taylor, vocalista do Slipknot.
A parte mais interessante do livro deve ser a última, que traz os diários de alguns filmes grandes nos quais Savini atuou. De origem humilde, sem nunca ter ganho rios de dinheiro (chegou a perder todas as economias que estava guardando para o neto, quando sua casa foi assaltada e levaram o cofre inteiro de 160 kg) e longe de ser um grande astro como ator, vamos acompanhando enquanto ele se deslumbra com grandes produções como Django Livre.

Nessa postura de chão-de-fábrica, Tom se espanta com o per dien generoso, as passagens de avião de primeira classe, os quartos de hotel literalmente maiores que sua casa, o buffet de sushi no intervalo das filmagens. Como ninguém é de ferro, aproveita a fama (relativa) e o carisma para se dar bem com as garotas, parte importantíssima de suas histórias. Sempre que pode, ele está lá tietando alguma grande estrela de Hollywood, como George Clooney, Salma Hayek ou Leonardo DiCaprio. Exatamente como a gente faria.
E só o que ele faz é tietar mesmo. Há histórias deliciosas, mas quem espera revelações explosivas ou algum exposed, pode ficar decepcionado. Savini tem o cuidado de até mesmo tarjar os nomes de algumas mulheres com as quais se relacionou. Se tem ou tinha desafetos na indústria, guardou isso para si, basicamente apenas elogiando seus colegas de produção, fossem técnicos, dublês, atores e atrizes ou diretores.
Quando cruzou com Mel Gibson nas filmagens de Machete Mata, fez questão de apertar a mão do ator e dizer que não dava bola para “nenhuma daquelas coisas que andavam falando dele por aí”. Ou seja, as acusações de antissemitismo, racismo e até violência doméstica que quase afundaram sua carreira. Nenhuma palavra sobre as polêmicas envolvendo Tarantino, como suas ligações com o monstruoso Harvey Weinstein e suas opiniões sobre violência contra mulheres. Já as demonstrações de sionismo por parte do diretor de Pulp Fiction são recentes demais para o livro, de qualquer forma.
Com inúmeras fotos coloridas e em P&B, tanto da vida pessoal de Savini quanto das produções nas quais trabalhou, ilustrações bacanas, formatão, capa dura e fitilho, “Tom Savini: vida monstruosa” segue o padrão de luxo da Darkside e é leitura obrigatória para os fãs de horror. Ou simplesmente curte cinema e quer saber um pouco mais sobre uma das figuras mais carismáticas e pé-no-chão da indústria.

* Frederico Toscano é historiador e escritor. Em 2019, lançou seu primeiro livro de ficção, a antologia de contos de horror “Carapaça Escura“, pela Editora Patuá.
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Para a dica desta semana eu trago um filme aniversariante: O EXORCISTA III (Exorcist III), escrito e dirigido por Willam Peter Blatty, completa 32 aninhos neste mês de agosto.

O EXORCISTA III é adaptação do livro ESPÍRITO DO MAL / LEGIÃO (Legion, 1983) que é uma continuação direta do livro O EXORCISTA (The Exorcist, 1971). Na trama, o tenente Kinderman investiga uma série de assassinatos que trazem a assinatura do já conhecido serial killer: Gêmeos. O problema é que este assassino está morto há 15 anos. Com a ajuda do amigo padre Joseph Dyer, ambos são levados a revelações cabulosas.

Blatty exibe um domínio enorme na condução do longa. E não é de se espantar, já que é o autor de ambos os livros. Aqui, com a direção em suas mãos, ele imprime sua real visão da própria obra, mantendo um clima constante de tensão como se algo de muito pior fosse acontecer a cada cena. A fotografia do Gerry Fisher é essencial para dar o tom sombrio à trama. Até estátuas sacras dão medo aqui! Sem contar que O EXORCISTA III tem um dos sustos e jumpscares mais cabulosos e inesperados da história do cinema de horror.

Para além da competente produção, o longa conta com a carismática dupla George C. Scott e Ed Flanders, (Kinderman e Dyer respectivamente), Brad Dourif que encarna o assassino de Gêmeos nos conferindo uma performance assustadoramente brilhante e Jason Miller vivendo o sinistro “paciente X”.

É de fato um filme incrível que, para este que vos escreve, por muito tempo foi subestimado por ser o terceiro da franquia O EXORCISTA, quando na verdade deveria ter sido o segundo, já que, como dito no início, se trata da continuação direta do livro. E convenhamos que depois do que rolou em O EXORCISTA 2: O HEREGE, carregar um título desse também não ajuda. Este longa de 1990 poderia ter se chamado simplesmente LEGIÃO como no livro, mas enfim…

Em suma, O EXORCISTA III é um típico terror policial cabuloso que merece ser visto. Ficou curioso? Aproveita que este clássico cult encontra-se no catálogo do HBO Max.
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Tem filme ruim que se revela bom. Tem superprodução que acaba sendo um fiasco. E tem “Ratos – A Noite do Terror” (Rats – Notte di terrore) que é um caso à parte. Se sacar a ficha técnica vai entender o porquê.
Produzido pela duplinha Bruno Mattei e Claudio Fragasso, esta tosqueira da sétima arte diverte e impressiona da forma que não deveria. O nobre leitor que já deve ter esboçado um sorriso ao ler o nome dos dois italianos, vai certamente se esbaldar com essa joia.
A picaretagem já começa pela autoria. Ao invés de Mattei e Fragasso, quem “assume” a direção é Vincent Dawn, um dos vários codinomes do cineasta pras obras em que ele não se orgulha tanto.

Depois da devida introdução, vamos à história… que se passa em 225 A.B. (After the Bomb) num mundo pós-apocalíptico, onde a população passou a viver no subterrâneo e gangues disputam o território da superfície enfrentando ratos. Sim! Porque ao invés das baratas que sobreviveriam à radiação nuclear, neste filme quem se aproveita do que restou do planeta são os roedores.
Considerando este contexto, não tem muito o que dizer, uma vez que assim como acontece na maioria dessas histórias, os sobreviventes vagam de um canto a outro em busca de proteção e comida. Mas o que eles não contavam é que vão encontrar ratos em quase todo canto. E essas ratazanas estão famintas e sedentas de sangue…

No entanto, não espere grandes cenas e ataques elaborados. Os ratos, sejam eles vivos ou de pelúcia, são literalmente jogados em cima dos personagens. A reação de nojo e repulsa do elenco pode até compensar a atuação um tanto medíocre, mas tudo faz parte do pacote.
E em meio às brigas de gangues rivais e roedores que mordem o rosto, a barriga e os membros das pessoas por dentro e por fora, quem sobrevive até o final do filme presencia uma cena que teria tudo para ser chocante. Teria, claro, porque nas mãos de Mattei/Fragasso, a tal cena fica tão, mas tão bizarra, que só nos resta rir e aplaudir tamanha ousadia.

“Ratos – A Noite do Terror“, obviamente não é pro bico da Netflix, mas pode ser visto e revisto tranquilamente no YouTube para seu deleite.
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Eu me perguntei um dia desses: o que foi que aconteceu para a gente nunca ter falado de Saint Maud aqui no Toca o Terror? Provavelmente o motivo foi a bagunça que é para filmes mais alternativos serem lançados oficialmente no Brasil. Falamos em algum programa na rádio, mas texto não rolou. Bom, esse erro será corrigido hoje, graças à sua, à minha, à nossa Dica da Semana.

Em uma cidade litorânea do norte da Inglaterra, a enfermeira Maud (Morfydd Clark) é designada como cuidadora da ex-bailarina e coreógrafa Amanda (Jennifer Ehle), que vive sozinha e enfrenta um linfoma na medula em fase terminal. Essa relação desencadeia uma série de atritos, pois, enquanto a jovem é extremamente católica, a paciente adora os prazeres mundanos.

Com um trauma em seu passado recente, Maud encara o emprego na casa de Amanda como uma missão divina: salvar a alma daquela mulher depravada à beira da morte e mandá-la para o céu. É aí, claro, que as coisas começam a se complicar. Produzido pela A24, o filme é o primeiro longa da carreira da diretora Rose Glass e é uma alegoria magnífica sobre fanatismo religioso, mas paremos por aqui. Saint Maud é curto, só tem 1h20, então falar mais é certeza de spoiler.

Para finalizar, vale destacar o desempenho de Morfydd Clark. Hoje mundialmente conhecida pelo papel da elfa Galadriel, na Série d’O Senhor dos Anéis, a atriz sueca dá show como a enfermeira confusa que tenta interpretar sinais divinos em tudo que vê. O filme está disponível nos streamings Prime Video e Apple TV. Se você tem TV por assinatura, ele entrou recentemente na programação do canal Space e, vira e mexe, passa por lá. Com o perdão do trocadilho, vá na fé.
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