Críticas
CRÍTICA: In Search of Darkness (2019)

[Por Frederico Toscano]*
In Search of Darkness é um documentário com uma proposta simples e direta: destrinchar a produção de horror dos Estados Unidos da década de 80. Lançado em maio do ano passado, acabou não chamando tanta atenção no Brasil (ou mesmo lá fora), provavelmente por não ter recebido uma distribuição e divulgação mais abrangentes. O que é compreensível, já que o projeto não saiu de um estúdio convencional, sendo fruto de uma bem-sucedida campanha de arrecadação dos sites Kickstarter e Indiegogo.
Com a meta alcançada e os fundos garantidos, o diretor e roteirista David Weiner deve ter pensado que os apoiadores mereciam ver seu dinheiro bem empregado. E entregou um filme de quatro horas e meia de duração. E pensar que teve gente reclamando de O Irlandês…
Longo desse jeito, talvez funcionasse melhor como uma minissérie, mas a edição é ágil, e o espectador é bombardeado sem parar por uma quantidade aparentemente ilimitada de informações. Também ajuda a quantidade (e a qualidade) incrível dos entrevistados, de diretores e produtores do quilate de John Carpenter, Joe Dante, Don Mancini e Greg Nicotero, a atores e atrizes como Jeffrey Combs, Kane Hodder, Cassandra Peterson, Alex Winter, Barbara Crampton e muitos mais, além de maquiadores, bonequeiros, técnicos em animatrônicos, sonoplastas, músicos e todos aqueles que ajudam a fazer um filme de horror, em toda a sua sanguinolência e membros decepados.

O documentário não organiza as produções por temática, subgênero ou diretores, em vez disso vai progredindo cronologicamente, de 1980 a 1989. Inicialmente, parece uma escolha meio esquisita, com filmes um tanto díspares sendo agrupados, tais como Christine, o Carro Assassino, Psicose 2 (Psycho 2) e Videodrome: a Síndrome do Vídeo, todos de 1983. Mas o formato permite visualizar a variedade de lançamentos de ano a ano, cada um deles trazendo uma quantidade quase inacreditável de (hoje) clássicos.
De vez em quando surgem alguns assuntos específicos, que englobam a década como um todo, tais como a música da época, os efeitos especiais, a cultura de locadoras, etc… E tome informação! Esse, na verdade, é um dos grandes trunfos do filme. Sucessos de crítica, como O Iluminado (The Shining), possuem seus próprios documentários, examinando cada detalhe da produção. In Search of Darkness acaba dando a oportunidade de outros filmes contarem suas histórias.

E histórias não faltam. Como uma do diretor Joe Dante, explicando que o sucesso Gremlins (Gremlins, 1984) deveria ter sido menos terrir e mais horror mesmo, sendo que as mortes mais violentas acabaram no assoalho da sala de edição. E também que o monstrinho fofo Gizmo (Baby Yoda antes do próprio Baby Yoda) deveria ter sofrido uma mutação (lembrem-se das regras!) e se tornado o vilão do filme, o gremlim psicopata e de moicano grisalho Stripe.
Mas aí, um tal de Steven Spielberg resolveu visitar a produção e sugeriu que Gizmo durasse até o fim e se tornasse o parceiro de aventuras do protagonista. Resultado: o bichinho não só sobrevive, mas ainda retorna para a continuação, muito mais escrachada, com direito à montagem de treinamento estilo Rocky e cosplay de Rambo.
Também ficamos sabendo que Comboio do Terror (Maximum Overdrive) foi a estreia de Stephen King na direção. E ele estava tão louco de pó, que o filme virou uma bagunça que conseguiu não agradar ninguém. Nem mesmo os muitos fãs do escritor, que cheirou até esquecer praticamente tudo o que aconteceu durante a produção…

Mas o legal mesmo é perceber as tendências dos anos 1980 como um todo. Foi, por exemplo, a década dos lobisomens, com filmes como Grito de Horror (The Howling) e suas continuações, além de Bala de Prata (Silver Bullet), A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves) e, claro, Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London). Foi por este último que Rick Baker levou um merecidíssimo Oscar de Maquiagem, categoria recém-criada e que, em sua estreia, acabou premiando justamente um filme de horror, mostrando a força do gênero.
Os anos 80 foram ainda a década do horror em 3D, que já tinha tido um grande momento nos anos 50 e agora retornava principalmente para tentar gerar interesse por continuações. E foram essas continuações que acabaram ajudando a lançar a carreira de muitas atrizes famosas, tais como Meg Ryan em Amityville 3: O Demônio (Amityville 3D) e Tubarão 3 (Jaws 3).
A onda começou justamente com O Parasita (Parasite), com uma Demi Moore quase adolescente. Como observa um dos entrevistados, “o 3D deveria ter vindo para revolucionar a experiência cinematográfica mas ainda estamos esperando essa revolução”. Verdade. Por sorte, a moda atual parece estar, finalmente, perdendo força.
Foi também o tempo das locadoras. É difícil explicar o que tinha de mágico nelas para quem não viveu a época (velho adora reclamar, tenham paciência!), mas havia uma socialização naquele espaço que se perdeu quando elas cerraram as portas. Sem internet e com pouco acesso a publicações especializadas (no Brasil, a um certo custo, ainda se encontrava a revista Fangoria, importada, cara e toda em inglês), era preciso apostar na capa do VHS, se agradar da sinopse, buscar algum nome conhecido na produção ou confiar nas indicações.
Eram os funcionários, que passavam o dia assistindo filmes, que davam as dicas, além dos amigos e outros frequentadores da locadora. Num tempo onde havia uma em cada esquina, em vez de farmácias (creiam, jovens!), você escolhia a sua favorita nem tanto pelo preço da locação, mas pelas pessoas que encontrava por lá.
E aqui fica claro que uma das grandes forças do documentário é a nostalgia. Para quem viveu os anos 80, seja americano ou brasileiro, os filmes de horror, com seus efeitos práticos pré-computação gráfica, sanguinolência e nudez (feminina e bem machista, claro) eram sinônimo de final de semana com a família, em frente à TV e ao videocassete.

Naqueles tempos malucos, onde usar cinto de segurança ao dirigir era opcional e a molecada era criada solta na rua. Não tinha muito isso de classificação indicativa (e a censura, felizmente, foi morrendo junto com a ditadura). Normalíssimo assistir, junto com os pais, adolescentes transando em algum acampamento de verão para logo depois serem desmembrados aos berros por algum psicopata estilo Jason ou Freddy Krueger. Constrangimento zero. Enfim, tempos que não voltam mais.
As coisas mudam, afinal, e a verdade é que é bom que seja assim. Um dos melhores momentos de In Search of Darkness é quando as mulheres falam dos personagens femininos nos filmes de horror da década de 80. Principalmente nos slashers. Havia sim muito sexploitation, objetificação da nudez e, em alguns casos, mesmo uma fetichização de tortura, dor e morte.
Mas não apenas isso. Atrizes como Barbara Crampton e Caroline Williams defendem seus personagens, admitindo o machismo da época, mas deixando claro que não se resumiam a isso: elas possuíam uma forte presença física, correndo, pulando, lutando, morrendo, sim, mas muitas vezes matando também, dando fim (ao menos por algum tempo) ao vilão e salvando o dia. O tipo de coisa que só astros de filmes de ação como Bruce Willis ou Stallone faziam na época.

Elas também rejeitam o apelido fácil (Hollywood, afinal, adora uma fórmula de sucesso) de scream queens ou final girls. Como diz Keli Maroney, com um sorriso irônico, no tempo dela, elas eram chamadas simplesmente de protagonistas. E isso não era pouca coisa! Da mesma forma que a década de 1980 se abriu para o protagonismo feminino nos filmes de horror americanos, essas mesmas atrizes esperam que a época atual faça o mesmo para a população LGBT e trans. Já passou da hora!
Falando em hora, seria impossível comentar de forma minuciosa um documentário da duração de In Search of Darkness. É nostálgico, sim, mas também é, claramente, um trabalho de amor, feito de fãs, para fãs (mas não apenas eles). Gente que adora o horror, oitentista ou não. É um filme muito longo que por vezes parece um tanto bagunçado e tem umas decisões meio esquisitas.
Por que diabos Aliens, o Resgate não está lá? Tudo bem, o original é da década anterior, mas O Massacre da Serra Elétrica 2 (The Texas Chainsaw Massacre) também, e faz parte do documentário. E por que diabos Corey Taylor, vocalista da banda Slipknot, é um dos entrevistados mais frequentes? Não é nada que subtraia do resultado, afinal, e qualquer um que seja fã do cinema de horror e tenha aí um turno inteiro do dia sobrando, vai se divertir muito assistindo. Recomendado!
Comentários aleatórios:
– Tom Atkins estava em quase TODOS os filmes. Sério… todos, do começo ao fim da década. Deu tempo de aparecer como galã tardio (e, sejamos sinceros, improvável) em A Bruma Assassina (The Fog) e como policial grisalho-cansado-da-vida-em Maniac Cop: O Exterminador;
– Acha que estamos vivendo uma StephenKingmania hoje? Experimente contar quantos filmes baseados em trabalhos dele viram a luz na década de 1980;
– Teve machismo e exploração. Mas teve também diretoras fazendo ótimos filmes de horror, como Kathryn Bigelow, com Quando chega a Escuridão (Near Dark) e Mary Lambert, com Cemitério Maldito (Pet Sematary);
– A década de 80 deu ao mundo pelo menos duas boas adaptações de trabalhos do escritor H. P. Lovecraft: Do Além (From Beyond) e Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos, com praticamente a mesma equipe e elenco;
– Melhor frase: Joe Dante, sobre a refilmagem de Psicose de 1998, com seu jeitão simpático de tio e voz baixa, dizendo que é descabida, desnecessária, um não-filme. Ao comentar a justificativa dos estúdios de que uma história contada em preto e branco não geraria interesse entre os mais jovens, o diretor olha para a câmera, sorri com doçura e diz “fuck them!”.

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Muita gente vai dizer que “Cara-de-Barro” (Clayface) é a versão masculina de “A Substância“. Mas, mesmo guardando semelhanças por conta do background que envolve o cenário hollywoodiano, este filme da DC Studios tem muito mais similaridades com o obscuro “Darkman – Vingança Sem Rosto” de Sam Raimi.
Calma que chego lá… Primeiro, falemos sobre este lançamento. O atraente e promissor ator Matt Hagen (Tom Rhys Harries) estava no topo do mundo, com indicação ao Oscar e presença garantida em programas de TV e capas de revistas. Até que um dia se envolveu com a namorada de um chefão da máfia. Como era de se esperar, o criminoso não levou a traição numa boa e o acerto de contas veio em forma de retalhar aquele rostinho bonito com um canivete, da maneira mais brutal possível.
Levado ao hospital, Hagen é desenganado após procedimentos que deixaram seu rosto como uma mistura de Chucky com Fofão. Se você tiver fobia de agulhas e lâminas, precisará desviar o olhar várias vezes ao longo da exibição diante de cenas agoniantes, o que foi o meu caso, diga-se de passagem.

Após ter alta, o ex-ator passa a viver nas sombras por conta não só de sua aparência desfigurada, mas também por conta da campanha de difamação promovida pelo chefão da máfia para se safar de acusações, mesmo diante da Justiça corrupta de Gotham City. Sem ter a quem recorrer, Hagen vai atrás de um tratamento experimental com nanocélulas conduzido pela Dra. Caitlin Bates (Naomi Ackie) tentando ver se ao menos salva a própria pele.
O tratamento dá meio certo. Mesmo com efeitos colaterais bizarros, incluindo derretimento facial sem botox estragado, um Hagen movido pelo ódio inicia uma vingança contra quem acabou com sua vida pregressa. E assim como Darkman, que para quem não lembra ou não viu, também era um personagem desfigurado fisicamente por conta da intriga de figurões do submundo do crime, o ator caça um a um os responsáveis, disfarçando sua identidade.
Como seus métodos ultrapassam qualquer limite aceitável de violência e morte, fica difícil manter a empatia. Até porque esse é um dos maiores desafios de filmes solo focados na origem de vilões: apresentar motivações com um passado triste para que o público ignore condutas reprováveis e passe a torcer pelo protagonista.

Em “Cara-de-Barro“, contudo, a dinâmica muda de figura. Originalmente, o personagem integra a galeria de vilões do Batman nos quadrinhos desde a década de 1940. Na primeira versão impressa, o humano por trás da criatura era Basil Karlo, também ator. Já neste longa, a história mistura elementos de sua origem ao pegar emprestado o nome de Matt Hagen, a segunda encarnação do monstro nas HQs, em que era retratado como um caçador de tesouros. E bem, na série animada do Batman, ele também não era lá uma figura muito simpática.
Com isso, sem precisar apelar pro fandom da DC e sem querer forçar que o espectador comum entenda o que e quem é, “Cara-de-Barro” ao menos é bem sucedido em apresentar uma história coesa. E apesar de ter uma certa ânsia em criticar a superficialidade das aparências humanas e do sistema que sustenta o entretenimento em Hollywood, o longa de James Watkins aposta alto também nos efeitos visuais e na maquiagem, como era de se esperar, levando uma historinha de boneco para o campo do body-horror.

O ponto fraco mesmo fica no didatismo da crítica social foda em que o espectador é relembrado, a cada duas cenas, de como a indústria cinematográfica também é fútil e descarta seus atores e atrizes quando estes são cancelados. Ainda assim, este filme funciona melhor do que os longas derivados dos vilões do Homem-Aranha que colocaram até criaturas monstruosas como Venom em situações e falas engraçadinhas. Mas não se engane, não há cena bonitinha e alívio cômico em “Cara-de-Barro“. Trata-se de uma história sombria e sem redenção.

Imagem meramente ilustrativa do personagem nos quadrinhos
Título original: Clayface
Diretor: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini
Elenco: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, Max Minghella, Joana Ribeiro e outros
Ano de lançamento: 2026
* Filme visto em Cabine de Imprensa promovida pela Espaço Z no Cinemark Rio Mar no Recife
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Há dez anos, “Invasão Zumbi” (Train to Busan) chegava como um verdadeiro fenômeno no círculo de fãs de horror. O filme em si não apresentava nenhuma grande inovação no gênero, mas se destacava ao fazer boas cenas de ação (sim, de ação) com os zumbis/infectados num trem que cortava a península coreana.
Agora em “Zona Zero” (Colony), parte da construção da tensão e da ação em meio a uma infestação, ou seria infecção zumbi, se mantém em uma estrutura linear. Desde o início descobrimos quem é o vilão, suas intenções e como irá promover o caos, que na visão dele, na real é parte do renascimento da sociedade humana.

Baseado em conhecimentos e teorias da cyber-biologia, ou biotecnologia, que passam longe da ética, um pesquisador invejoso cria um vírus de laboratório para espalhar em uma importante convenção científica.
E em menos de meia hora de filme já temos uma grande leva de vítimas e de infectados que agem como zumbis maratonistas e triatletas. Depois que rola o primeiro ataque, aí é correria para todo lado. Quem foge ou tenta escapar da horda de criaturas tem q apelar pra se esconder em lojas e corredores do enorme empresarial que abriga centro de convenções e de compras.
Até se veem semelhanças com o “Despertar dos Mortos” (Dawn of The Dead) de George Romero nessa ambientação, mas só ali mesmo porque os monstros agora correm e atacam com verocidade.

Na comparação com o trem pra Busan onde cada vagão continha uma ameaça diferente, neste longa aqui, os sobreviventes precisam se esconder em diferentes andares e escritórios evitando confronto com os infectados. Até porque diferente de mortos-vivos convencionais, estes aqui possuem o diferencial de se comunicar em conjunto por uma consciência coletiva como ocorre com formigas.
Esse aí é inclusive o maior problema do título brasileiro do longa que não faz o menor sentido dar nome de “Zona Zero” quando seu nome original é traduzido como “Colônia” que tem total sintonia com a premissa já mencionada.

Mas mesmo sendo um pouco previsível assim nesta narrativa mais convencional de confinamento e fuga, “Zona Zero” reserva algumas surpresas, já que diante da ameaça e do vilão, não temos como imaginar como isso pode acabar e quem será o último a contar história.
E um dos maiores méritos do longa é usar poucos efeitos digitais e trabalhar bem com atores, figurantes e efeitos práticos bem grotescos. Em época de proliferação de uso de Inteligência Artificial como muleta pra qualquer tipo de cena no cinema, digamos que é um avanço dos coreanos mesmo que isso não seja uma inovação.
Título original: Colony
Direção: Yeon Sang-ho
Roteiristas: Choi Kyu-seok e Yeon Sang-ho
Elenco: Jun Ji-hyun, Koo Kyo-hwan, Ji Chang-wook
País de origem: Coreia do Sul
* “Zona Zero” estreia nos cinemas brasileiros em 15 de outubro e foi visto pelo Toca o Terror em Cabine de Imprensa promovida pela Espaço Z
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Críticas
CRÍTICA: Meus Mortos Tristes (2026)
Dirigido pelo chileno Pablo Larraín, a minissérie “Meus Mortos Tristes” não foca em assombrações malignas e jumpscares. O papo aqui é drama familiar e crítica social foda com uma médica que consegue ver e ouvir fantasmas.

Vamos iniciar com uma sinopse sem muitos detalhes, para não estragar a surpresa que acontece já no primeiro episódio de Meus Mortos Tristes (2026), nova minissérie argentina da Netflix. Baseada nos contos da escritora Mariana Enriquez, que também é um dos roteiristas, a obra chegou ao serviço de streaming no dia 24 de setembro.
Ema (Mercedes Morán) é uma médica que consegue ver e ouvir fantasmas. Após a morte da mãe, ela se muda para a antiga casa, que fica perto de um conjunto habitacional barra pesada, no subúrbio de Buenos Aires.

Com a visita de parentes que moram nos Estados Unidos, Ema descobre que sua sobrinha Julie (Carolina Álvarez) tem a mesma habilidade sobrenatural. O problema é que um evento inesperado faz com que a relação entre vivos e mortos tome grandes proporções na localidade.
Dirigido pelo chileno Pablo Larraín (O Conde, 2023), Meus Mortos Tristes tem quatro episódios e não precisava tanto. Mas isso fica para depois. É importante começar dando o alerta que a minissérie não vai focar em assombrações malignas e jumpscares, o papo aqui é drama familiar e crítica social foda.
Mercedes Morán é o grande destaque. Sua personagem não é nenhuma Lorraine Warren e não vê glamour, nem missão divina, em sua habilidade de se comunicar com espíritos.

Apesar de possuir sensibilidade suficiente para tomar decisões certas, o desdém pelo dom que carrega é sua maior faceta. A relação com a família, incluindo o fantasma da mãe, rende os melhores momentos. Carolina Álvarez, num papel mórbido e cativante, também merece ser lembrada.
Em algumas entrevistas o elenco teceu loas a Larraín, afirmando que o diretor foi o responsável por tirar deles algumas de suas melhores atuações. Como não há sustos e coisas pulando na tela, é a interação entre os personagens que faz a trama andar. E funciona bem.
Outro trunfo de Meus Mortos Tristes é sua ambientação na periferia. A violência do lugar e o clima de abandono da população de baixa renda faz um paralelo com a situação dos desencarnados que aparecem. A fotografia fria e azulada completa o quadro.
Mas, como dito acima, nem tudo são flores nesse túmulo e, talvez, um filme cairia melhor para essa história. O formato em quatro episódios (de 50 minutos cada) estica demais a trama, o que causa alguns problemas de continuidade e a sensação que o programa está enchendo linguiça.

Outra prova disso é que algumas subtramas ficam subvalorizadas, como o arco de Carol (Dolores Fonzi), filha de Ema, que sofre com a relação mal resolvida com a mãe e com uma perda pessoal. Os pais de Julie também são meio esquecidos durante boa parte do roteiro. O mesmo acontece com Lautaro (Germán De Silva), personagem que carrega um passado de amor não correspondido por Ema.
Ainda assim, Meus Mortos Tristes é uma bela fábula sombria, que fala sobre luto, depressão e memória. Sem contar que a minissérie faz um competente comentário sobre a violência desenfreada nas grandes metrópoles da América Latina. Vale o play nas apariciones.
Título original: Mis muertos tristes
Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Anastasia Ayazi, Guillermo Calderón, Mariana Enriquez e Pablo Larraín
Elenco: Mercedes Morán, Dolores Fonzi e Carolina Álvarez
Origem: Argentina
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