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CRÍTICA: Undocumented (2010)

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[Por Jarmeson de Lima]

Se você pesquisar pela palavra “undocumented” na Netflix, você vai achar só um filme. No caso, este de mesmo nome no qual indico a vocês e falarei a respeito nas próximas linhas. É uma obra de ficção montada como documentário found-footage. Mas se você procurar pelo mesmo termo no YouTube, vai encontrar inúmeros videos reais sobre os atuais “undocumented” da Era Trump. Pessoas deportadas, expulsas dos Estados Unidos e sem previsão de volta simplesmente pelo fato de não terem nascido naquele pedaço de chão.

Na época que vi o filme, tinha achado ele bem assustador, mas hoje em dia, a realidade consegue ser ainda pior. É curioso voltar a este filme após alguns anos. Quando o vi, achei um pouco exagerado. Tudo bem que o tema e o tratamento pediam um pouco de radicalismo e algo de chocante para impressionar o público, mas eis que a realidade imita a ficção de tal modo que nem parece ser só um longa inocente.

Mas bem, vamos a obra em questão… “Undocumented” é um bom e barato found-footage como o formato exige. Começamos acompanhando um grupo de jovens cineastas que partem para a fronteira do México com os Estados Unidos para registrar a entrada de imigrantes latinos no país de forma clandestina. Poderia ser só mais uma reportagem de denúncia ou de alerta, mas logo vira o pior dos pesadelos para todos os envolvidos. E o pesadelo não é a polícia da imigração, mas sim, a armadilha preparada por um bando de justiceiros para castigar aqueles que consideram como uma “praga” para a América.

Como estamos lidando com um falso documentário, o que se segue em diante no filme é meio que previsível, mas ainda assim aterrorizante. Vemos um grupo de americanos encapuzados torturando suas vítimas e colocando no mesmo balaio tanto os latinos que abominam, quanto a galera “de humanas” que quis apenas filmar os imigrantes que vieram “roubar os empregos” dos cidadãos de bem. Até cabe um paralelo em ver que esses mesmos justiceiros sem identificação se assemelham a comentaristas de portal que rosnam para tudo que lhes contraria a opinião mas que não têm coragem de mostrar o rosto.

Visualmente e tecnicamente, “Undocumented“, obra de Chris Peckover, do elogiado “Better Watch Out“, funciona e prende sua atenção até o final. Ainda assim, dá medo em ver que o governo de Donald Trump tornou essa xenofobia algo “aceitável” para que rednecks, reaças e outros grupos covardes que semeiam ódio possam achar as cenas do filme apenas divertidas.

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DICA DA SEMANA: Possessor (2020)

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Para a dica da semana, eu queria algo que fosse no mínimo intrigante. Daí vi que no catálogo da HBO Max entrou o cabulosíssimo POSSESSOR (2020), filme de Brandon Cronenberg – filho de ninguém menos que David Cronenberg – no qual pessoas são possuídas não por demônios, mas por outras pessoas.

Na trama, em um futuro não muito distante, acompanhamos Tasya Vos (Andrea Riseborough), uma espécie de assassina de aluguel que, por meio de uma empresa que detém uma tecnologia de transferência de consciência, possui a mente de outras pessoas para usá-las como veículos para matar seus alvos. O longa abre com uma jovem, nitidamente abalada emocionalmente, está se produzindo para participar de um evento quando, do nada, enfia algo em um plug na sua cabeça. Em seguida ela assassina brutalmente um figurão da alta sociedade em público, acabando morta pela polícia. É dessa forma singela que POSSESSOR começa.

Tudo em aqui é visualmente intenso e explícito. Tudo mesmo! Brandon usa e abusa dos efeitos práticos pra explorar o horror corporal ao máximo, conferindo cenas que provavelmente vão fazer você desviar o olhar. A violência aqui nunca chega ao caricatural e vão causar incômodo real pela crueza de como é mostrada. Algumas cenas até lembram Dário Argento por conta dos planos detalhes e das cores vibrantes de toda nojeira. Fora o gore, as muitas sequências que ilustram todo horror corporal e mental das personagens são criativas e dolorosas.

Para além do óbvio domínio técnico, o cineasta não deixa o estilismo audiovisual apenas como aparato puramente estético, mas sim como recurso para contar a história. Pouco aqui é de fato explicado. Por exemplo, não temos noção do ano em que estamos ou de quem são aquelas pessoas, ficando claro que o canadense não se preocupa nem um pouco em ser didático, preferindo dar pequenas dicas aqui e ali, deixando a maior parte para a imaginação do espectador. Isso seria ruim se a intenção do filme fosse tratar do universo em que tudo se passa, mas como aqui o foco é a questão existencial da protagonista, o pouco que é exposto textualmente é suficiente pra entendermos os conflitos morais e emocionais da assassina de aluguel.

Temos critica social foda em POSSESSOR? Claro que sim! O roteiro, também assinado pelo diretor, não pega leve em apontar o quão vil a política do capitalismo pode ser. Na trama, temos um cenário de vigilância das marcas em nossas vidas que assusta de tão absurdo e de tão próximo da realidade essa mera especulação pode ser. Quem nunca se perguntou se tem alguém nos ouvindo 24h por dia, já que, instantaneamente, propagandas incrivelmente assertivas surgem “como mágica” nas nossas redes sociais?

Intrigante, violento e cabuloso, POSSESSOR é um filme que fica na cabeça e pode ser considerado “intragável” por em questão certas convenções morais. Para este vos escreve, foi um dos melhores filmes de 2020. Aproveita que tá no catálogo da HBO Max e dá uma conferida.

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DICA DA SEMANA: O Orfanato (2007)

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O Orfanato

Uma coisa não podemos negar, o cinema de terror espanhol é ‘classudo’. Mesmo as tosqueiras setentistas de Amando de Ossorio, as maluquices de Álex de la Iglesia ou até os found-footages frenéticos da franquia [REC], todos esses são filmes que têm a ambientação como ponto em comum. Ficaríamos falando horas sobre outros aqui.

O Orfanato (2007) é um belo exemplo disso. Um suspense de casa assombrada que se utiliza de ótimas locações para contar a sua história. Laura (Belén Rueda) volta ao imóvel que, há 30 anos, foi o lar para órfãos onde ela passou parte da infância. Agora adulta, seu plano é reabrir o local e receber novas crianças.

Com ela, estão seu marido Carlos (Fernando Cayo) e o filho Simón (Roger Príncep), de 7 anos. O problema, como você já deve estar imaginando, é que não são apenas pessoas vivas estão habitando o antigo casarão, que fica na Astúrias, no noroeste da Espanha, uma região costeira que caiu como uma luva para a produção.

Falei que a ambientação era legal, mas claro que só isso não sustentaria o filme. Precisamos dar destaque à atuação de Belén Rueda, que se entrega de corpo e alma (perdão pelo trocadilho), quando o sobrenatural dá às caras no roteiro (assinado por Sergio G. Sánchez). O filme ainda lançou J.A. Bayona para Hollywood e o diretor espanhol, hoje, comanda blockbusters como Jurassic World 2: Reino Ameaçado.

Com produção executiva de ninguém menos que Guillermo del Toro, O Orfanato bombou na época. E mesmo abordando um tema tão requentado no cinema fantástico, ganhou notoriedade pela peculiaridades da trama, algo que o distanciou de produções genéricas.

Particularmente acho que o roteiro tem uns furos aqui e ali, mas nada que o desabone. Achei meio forçado o menino lá com um saco na cabeça (tentando criar uma identidade visual para o ‘vilão’), mas entendo que esse tipo de artifício tem um objetivo comercial, então ok.

O que interessa é que O Orfanato segue relevante depois de mais de uma década e se você é assinante da Netflix ou do Amazon Prime Video, corra que o filme está nas duas plataformas.

P.S.: Quem faz uma ponta nesse filme é Edgar Vivar, o eterno Senhor Barriga do seriado mexicano Chaves.

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DICA DA SEMANA: The Baby (1973)

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The Baby

Vou logo dizendo que sou suspeito na indicação desse filme. Filmes com adultos que interpretam bebês, a meu ver, são praticamente garantia de experiências cinematográficas maravilhosas para não falar em potenciais obras-primas. Minha dica da semana se enquadra perfeitamente nessa segunda categoria.

The Baby“, de Ted Post, conta a história de uma assistente social chamada Ann Gentry (Anjanette Comer) e sua obsessão pelo jovem de 21 anos que atende por Baby (David Mooney), o caçula da família Wadsworth. Ann está convencida de que as mulheres desse clã disfuncional, formado pela matriarca Ma (Ruth Roman), sua filha mais velha, Germaine (Marianna Hill, irretocável) e pela sádica loira com olhos enlouquecidos Alba (Susanne Zenor) deliberadamente impedem Baby de se desenvolver normalmente. Isso provavelmente porque elas não querem que ele cresça como os detestáveis homens de seus passados. Ann então passa a usar métodos pouco ortodoxos em suas tentativas de resgatar Baby e assim correrá o risco de perder seu emprego e sua vida.

Um filme que começa como um modesto “thriller” setentista feito para a TV mas que, à medida que avança, vai se tornando mais sombrio e distorcido, mesmo durante os momentos mais leves. A competência do elenco faz com que você entre de cabeça nesse universo, por mais absurda que seja a trama e aí quando você percebe, está tão envolvido que precisa ver até onde isso pode ir. E quem vai até o final, não se arrepende.

Eu detesto essa bobagem de “hoje em dia não fariam esse filme” pois isso geralmente vem acompanhado da defesa de um monte de coisa que não acrescenta em nada, mas nesse caso sou eu quem vou dizer tal frase. Hoje em dia “The Baby” não seria feito. Mas não por ser tão politicamente incorreto e sim porque a indústria cinematográfica praticamente perdeu a capacidade de ser originalmente criativa.

Você pode assistir essa belezura gratuitamente no Plex e no Youtube (com legendas traduzíveis, basta habilitar e configurar) clicando aqui ou com qualidade melhor mas sem legendas no Tubi. Boa diversão!

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