Críticas
CRÍTICA: O Conde (2023)

Uma das coisas mais legais do cinema é o poder de ridicularizar gente que não presta. Mel Brooks e a trupe do Monty Python faziam isso como ninguém. Para citar exemplos mais recentes, temos o que Quentin Tarantino e Taika Waititi fizeram com os nazistas em Bastardos Inglórios e Jojo Rabbit.
Entretanto, O Conde (El Conde, 2023) é mais cuidadoso do que essas obras do mainstream. O longa dirigido por Pablo Larraín, e escrito em parceria com Guillermo Calderón, mexe em feridas ainda abertas do povo chileno. Lembrando que Pinochet governou o Chile até 1990, deixando o poder há pouco mais de 30 anos. Então, a carnificina aqui tem limites.
E por falar em Augusto José Ramón Pinochet Ugarte, vamos à sinopse. Em O Conde, Pinochet (Jaime Vadell) não morreu. Ele, a esposa Lúcia (Gloria Münchmeyer) e o fiel escudeiro Fyodor (Alfredo Castro), vivem numa área remota, escondidos do mundo. Pinochet é um vampiro de 250 anos e está amargurado. Ele, assim como todo político safado, se acha um injustiçado e queria reconhecimento por ter “livrado o Chile do comunismo”.

Por conta disso, ele comunica à família que vai parar de beber sangue e, assim, morrer de verdade, pois “não quer viver em um país que o odeia”. Antes que isso aconteça, seus cinco filhos vão ao seu encontro, atrás do patrimônio acumulado pelo general, durante seus anos de negociatas e saques aos cofres públicos.
Enquanto estabelece esse cenário, O Conde se destaca por uma parte técnica impecável. A fotografia do veterano Edward Lachman usa o preto de branco não só para emular os clássicos filmes de terror, mas também para dar uma sensação de melancolia e decadência. Os efeitos especiais, tanto os práticos como digitais, mesmo discretos, são competentes.
O elenco é bom. Os coadjuvantes ficam bem em segundo plano, mas o Pinochet de Jaime Vadell funciona ao que o roteiro se propõe e a ‘freira exorcista’, interpretada por Paula Luchsinger, cumpre seu papel de ser o guia do espectador, revelando os podres da família e despertando a ‘paixão’ do vilão.

Entretanto, o longa assume o risco de soar como piada interna. Se o espectador não está familiarizado com a história da ditadura chilena, pode não sacar as inúmeras referências debatidas, como a relação do governo militar com a ex-primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher, as investigações após o 11 de Setembro ou o caso dos ‘pinocheques’.
Isso, no entanto, não pode ser apontado como uma falha, já que o público alvo é o povo chileno, e algo diferente disso não faria o menor sentido. Como dito no início, O Conde serve à defenestração de uma das figuras mais sórdidas do Século XX e, assim, cumpre seu papel social.
A comédia do roteiro não te fará gargalhar (no máximo vai tirar um sorrisinho discreto no canto boca), tampouco o terror assustará alguém. Suas quase duas horas, porém, cansam. O filme se estende sem necessidade em vários momentos, como se buscasse por uma complexidade que o validasse como obra de arte. Isso atrapalha o produto final, mas não o estraga.
Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Guillermo Calderón e Pablo Larraín
Elenco: Jaime Vadell, Paula Luchsinger e Alfredo Castro
Origem: Chile
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Mulher chega em um prédio sinistro e se torna vítima de um complô satanista. Bem, isso aí a gente vê no cinema desde “O Bebê de Rosemary“. Mas nunca de uma forma tão “divertida” como agora em “Eles Vão Te Matar” (They Will Kill You).
Tentando se equilibrar num limite tênue entre humor, terror e ação, o longa de Kirill Sokolov leva Asia Reaves (Zazie Beetz) até o centenário Virgil, um imóvel que esconde segredos entre seus andares. E no gerenciamento de empregados, hóspedes e seguidores de satã está Lily Woodhouse (Patricia Arquette) dando as ordens.

Se você viu o trailer, vai perceber que ali estão ótimas cenas de luta e ataques de uma forma escrachada e devidamente bem coreografadas. São sequências em que Asia tem que literalmente brigar para sobreviver diante dos que querem lhe matar, conforme anuncia o título do filme. Algo como “Constantine” meets “Kill Bill“.

Montado um pouco como se fosse um videogame com várias fases em que cada andar do Virgil apresenta um novo desafio, “Eles Vão Te Matar” traz na gênese esse terror de sobrevivência com uma temática sobrenatural/diabólica regado a litros de sangue jorrando na tela. Não tem lá uma crítica social foda nem nada muito inspirador, mas funciona mais do que a continuação que fizeram para “Casamento Sangrento“, em que inventaram uma motivação que não cola.

O diretor russo consegue extrair risadas em meio a cenas grotescas e mostra como a protagonista vira a verdadeira ameaça para seus algozes, utilizando qualquer arma que esteja à mão. Essa sarcástica aventura dura menos de duas horas e mostra que é possível fazer algo assim de forma despretensiosa sem enrolar demais até chegar na catarse final.
* Filme visto em Cabine de Imprensa promovida pela Espaço Z
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“Obsessão” poderia ser uma comédia romântica da Geração-Z. Temos um boy desinteressante, vacilão e inseguro que vive na friendzone. Ele passa a se interessar pela colega de trabalho e pede ajuda a um de seus amigos e colegas para dominar a arte da paquera. Mas nada sai conforme o combinado.
E como falei, “Obsessão” (Obsession) poderia ser tudo isso acima, mas não é. É denso, melancólico, tenso e catastrófico como um bom filme de terror pode ser. O mais curioso é que é uma produção da Blumhouse e por isso mesmo é surpreendente. De longe parece ser a produção mais ousada que Jason Blum já apostou.

Aqui a gente revisita a maldição da ‘pata do macaco’ em formato de item colecionável de loja esotérica. O tal “One Wish Willow” concede um único desejo às pessoas em vida e por isso mesmo deveria ser usado com cautela. Mas não espere isso de Bear (Michael Johnston), que pede para que sua crush Nikki (Inde Navarrette) se apaixone perdidamente por ele.
Quem já viu a saga “Mestre dos Desejos” sabe que qualquer pedido mal formulado pode se tornar uma maldição e um pesadelo. E neste caso, o amor trazido pelo amuleto não traz paz nem felicidade ao casal. Conduzindo as cenas com uma boa dose de estranheza e esquisitice, o diretor Curry Barker mostra sem pressa a radical mudança de estilo de vida de Nikki na companhia e na ausência de Bear.

É tudo tão imprevisível nas atitudes da garota que os jumpscares acabam funcionando. Impossível até não lembrar da icônica Pearl em algumas cenas em que a pobre Nikki tenta impressionar seu namorado. Inclusive, a dose de estranheza vai aumentando conforme a duração do filme vai passando, com direito a gore e cenas ainda mais violentas, sem alívio cômico.
No fundo, “Obsessão” é mais que um filme de terror. É também um grito de alerta para relacionamentos tóxicos em que a namorada sempre é vista como “louca”. Assim como em “Acompanhante Perfeita“, temos uma boa metáfora sobre o desejo e o interesse masculino sem medir consequências a respeito do que as mulheres sentem.

Confie no hype da vez e se surpreenda. Ah, e um adendo… em seu primeiro teste como ‘scream queen’, posso afirmar sem erro que Inde Navarrette foi aprovada com todos os méritos.
Título original: Obsession
Diretor: Curry Barker
Roteiro: Curry Barker
Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson e outros
Ano de lançamento: 2026
* Filme visto em Cabine de Imprensa promovida pela Espaço Z no Cinemark Rio Mar Recife
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Críticas
CRÍTICA: Passageiro do Mal (2026)
O trailer de “Passageiro do Mal” já avisava que vinha clichê por aí, mas a minha mente insistiu no clássico “vai que é bom”. Não era.

“Passageiro do Mal” (Passenger) surgiu do nada (pelo menos para mim) nos últimos meses e, mesmo achando o trailer extremamente genérico e clichê, fiquei tentado a dar uma conferida. No fundo da minha mente ecoava: “vai que é bom e você está só sendo chato”. Então, com a estreia, decidi me arriscar no cinema e tirar minhas conclusões, que veremos a seguir.
A história segue um jovem casal que decide trocar a vida em um grande centro urbano pela aventura de viver pelo campo. Só que eles encontram o terror quando viram alvos de uma entidade demoníaca que caça vidas pelas rodovias. A questão é se eles vão seguir o caminho certo ou acabar dirigindo para a morte certa.

Olha, eu até gosto de filmes ruins quando eles se assumem dessa maneira. Acho, no geral, os filmes da The Asylum divertidíssimos, mas em “Passageiro do Mal” os realizadores foram para a direção mais clichê e imbecil possível, além de se levarem a sério demais. Eu me senti de volta ao início dos anos 2000, época em que filmes de assombração como este apareciam a rodo nos cinemas.
Os protagonistas são sem sal, com pouco carisma e desenvolvimento, enquanto os coadjuvantes são folhas em branco de tão rasos. A ameaça tem um visual bem questionável e pertence àquela categoria de vilões sobrenaturais que, assim que aparecem na tela, soltam um grito “assustador”.

A direção e o roteiro estão de mãos dadas na tentativa de assustar de uma forma que virou piada há décadas. Todas as tentativas de susto são extremamente telegrafadas, e as cenas de gore com CGI ruim enterraram de vez o longa. O diretor que tinha mostrado seu talento nos longas “A Autópsia” e “A Última Viagem do Deméter“, pareceu que aqui só estava interessado no contracheque mesmo.

Um filme claramente descartável que deveria ser uma sobra de streaming, mas que jogaram no cinema para pegar besta e masoquista. Neste caso, fui os dois. Aconselho você a respeitar o seu dinheiro e fazer outra coisa com o valor do ingresso.
Título original: Passenger
Direção: André Øvredal
Roteiro: Zachary Donohue e T.W. Burgess
Elenco: Melissa Leo, Lou Llobell, Jacob Scipio e outros
Duração: 94 min
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