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CRÍTICA: Calafrios (1975)

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shivers (wrongsideoftheart)
Por Rafael Dantas
Em 1975, o cineasta canadense David Cronenberg iniciou suas experimentações no campo do horror corporal com o filme Calafrios (Shivers), uma sátira extremamente controversa acerca da sexualidade e as relações humanas. Fugindo de cenários que remetem a um passado remoto e vilões sobrenaturais, o filme expõe a transformação da psique de seus personagens através de eventos extremos, fato recorrente na filmografia de Cronenberg. Neste caso, o acontecimento catalisador da transformação é a epidemia de parasitas que causam um furor sexual nos contaminados.
Eis a premissa do filme: o Dr. Emil Hobbes (Fred Doederlin), na tentativa de aproximar o homem de suas raízes animais e o instinto primitivo, criou um parasita amálgama de afrodisíaco e doença venérea (como descrito pelo próprio em um de seus relatórios), que gera em seu portador um frenesi erótico insaciável. A cobaia, uma estudante de 19 anos, relaciona-se sexualmente com alguns vizinhos e dissemina o parasita. A epidemia logo se alastra pelo condomínio Starliner, conjunto de prédios localizados numa ilha próxima à Montreal.
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A epidemia então faz com que seus personagens libertem seus devaneios eróticos enquanto o casal de protagonistas tenta alertar as autoridades e fugir da ilha. Cronenberg explora habilmente a frágil camada de verniz que esconde as taras e perversões dos seres humanos. Os parasitas libertam os moradores da ilha de suas inibições que, despidos de qualquer convenção social, põem para fora seus desejos mais escandalosos. Esse sadismo teve um preço: apesar de ter sido um filme extremamente rentável, Cronenberg foi massacrado pela mídia conservadora e chegou a ser expulso de seu apartamento por um senhorio pudico.
Visualmente, o parasita causa repulsa duplamente: se assemelha tanto a um verme quanto a um grande cocô, uma versão simplista e ainda mais visceral do Alien-larva de Ridley Scott (Alan Dean Foster, roteirista de Alien, admite ter se inspirado em Shivers para a criação dos estágios iniciais da criatura para o filme de 79). E seus efeitos nos indivíduos são tão libertadores quanto aprisionantes. De fato, livra seus portadores de quaisquer censura frustrante (particularmente a personagem de Barbara Steele, que, infectada, seduz a amiga que vive um drama conjugal), porém os transforma em seres obcecados, sem qualquer outro interesse.
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Como em vários filmes da época (e também um traço marcante do subgênero do horror corporal), o filme parece sugerir uma fragilidade das relações humanas, do corpo físico e das instituições, estremecidas pelo cenário político, social e econômico turbulento daquele momento. A velha ordem mundial se via ameaçada pela guerra fria, crises econômicas mundiais e surgimento de novos valores sociais.
Numa subversão precoce do zumbi clássico de Romero, os infectados perseguem o médico Roger St. Luc (Paul Hampton) e a enfermeira Janine Forsythe (Lynn Lowry) não para devorá-los, mas para que se juntem ao grande bacanal que toma conta do condomínio. Aparentemente, isso só muda caso os parasitas sejam ameaçados (o personagem interpretado por Joe Silver é assassinado enquanto tenta matar os vermes que queimavam seu rosto). Em outro caso, não querem matar, apenas obter mais membros para sua orgia, como se tentassem acabar qualquer possibilidade de censura. Afinal, numa festa de tarados, não há lugar para olhares caretas de reprovação.
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=eK9Wal9Dvic?rel=0&w=420&h=315]

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CRÍTICA: Eles Vão Te Matar (2026)

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Eles Vão Te Matar

Mulher chega em um prédio sinistro e se torna vítima de um complô satanista. Bem, isso aí a gente vê no cinema desde “O Bebê de Rosemary“. Mas nunca de uma forma tão “divertida” como agora em “Eles Vão Te Matar” (They Will Kill You).

Tentando se equilibrar num limite tênue entre humor, terror e ação, o longa de Kirill Sokolov leva Asia Reaves (Zazie Beetz) até o centenário Virgil, um imóvel que esconde segredos entre seus andares. E no gerenciamento de empregados, hóspedes e seguidores de satã está Lily Woodhouse (Patricia Arquette) dando as ordens.

Se você viu o trailer, vai perceber que ali estão ótimas cenas de luta e ataques de uma forma escrachada e devidamente bem coreografadas. São sequências em que Asia tem que literalmente brigar para sobreviver diante dos que querem lhe matar, conforme anuncia o título do filme. Algo como “Constantinemeets Kill Bill“.

Montado um pouco como se fosse um videogame com várias fases em que cada andar do Virgil apresenta um novo desafio, “Eles Vão Te Matar” traz na gênese esse terror de sobrevivência com uma temática sobrenatural/diabólica regado a litros de sangue jorrando na tela. Não tem lá uma crítica social foda nem nada muito inspirador, mas funciona mais do que a continuação que fizeram para “Casamento Sangrento“, em que inventaram uma motivação que não cola.

O diretor russo consegue extrair risadas em meio a cenas grotescas e mostra como a protagonista vira a verdadeira ameaça para seus algozes, utilizando qualquer arma que esteja à mão. Essa sarcástica aventura dura menos de duas horas e mostra que é possível fazer algo assim de forma despretensiosa sem enrolar demais até chegar na catarse final.

Escala de tocância de terror:

* Filme visto em Cabine de Imprensa promovida pela Espaço Z

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Críticas

CRÍTICA: Obsessão (2026)

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Obsessão

Obsessão” poderia ser uma comédia romântica da Geração-Z. Temos um boy desinteressante, vacilão e inseguro que vive na friendzone. Ele passa a se interessar pela colega de trabalho e pede ajuda a um de seus amigos e colegas para dominar a arte da paquera. Mas nada sai conforme o combinado.

E como falei, “Obsessão” (Obsession) poderia ser tudo isso acima, mas não é. É denso, melancólico, tenso e catastrófico como um bom filme de terror pode ser. O mais curioso é que é uma produção da Blumhouse e por isso mesmo é surpreendente. De longe parece ser a produção mais ousada que Jason Blum já apostou.

Aqui a gente revisita a maldição da ‘pata do macaco’ em formato de item colecionável de loja esotérica. O tal “One Wish Willow” concede um único desejo às pessoas em vida e por isso mesmo deveria ser usado com cautela. Mas não espere isso de Bear (Michael Johnston), que pede para que sua crush Nikki (Inde Navarrette) se apaixone perdidamente por ele.

Quem já viu a saga “Mestre dos Desejos” sabe que qualquer pedido mal formulado pode se tornar uma maldição e um pesadelo. E neste caso, o amor trazido pelo amuleto não traz paz nem felicidade ao casal. Conduzindo as cenas com uma boa dose de estranheza e esquisitice, o diretor Curry Barker mostra sem pressa a radical mudança de estilo de vida de Nikki na companhia e na ausência de Bear.

É tudo tão imprevisível nas atitudes da garota que os jumpscares acabam funcionando. Impossível até não lembrar da icônica Pearl em algumas cenas em que a pobre Nikki tenta impressionar seu namorado. Inclusive, a dose de estranheza vai aumentando conforme a duração do filme vai passando, com direito a gore e cenas ainda mais violentas, sem alívio cômico.

No fundo, “Obsessão” é mais que um filme de terror. É também um grito de alerta para relacionamentos tóxicos em que a namorada sempre é vista como “louca”. Assim como em “Acompanhante Perfeita“, temos uma boa metáfora sobre o desejo e o interesse masculino sem medir consequências a respeito do que as mulheres sentem.

Confie no hype da vez e se surpreenda. Ah, e um adendo… em seu primeiro teste como ‘scream queen’, posso afirmar sem erro que Inde Navarrette foi aprovada com todos os méritos.

Escala de tocância de terror:

Título original: Obsession
Diretor: Curry Barker
Roteiro: Curry Barker
Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson e outros
Ano de lançamento: 2026

* Filme visto em Cabine de Imprensa promovida pela Espaço Z no Cinemark Rio Mar Recife

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CRÍTICA: Passageiro do Mal (2026)

O trailer de “Passageiro do Mal” já avisava que vinha clichê por aí, mas a minha mente insistiu no clássico “vai que é bom”. Não era.

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Passageiro do Mal

Passageiro do Mal” (Passenger) surgiu do nada (pelo menos para mim) nos últimos meses e, mesmo achando o trailer extremamente genérico e clichê, fiquei tentado a dar uma conferida. No fundo da minha mente ecoava: “vai que é bom e você está só sendo chato”. Então, com a estreia, decidi me arriscar no cinema e tirar minhas conclusões, que veremos a seguir.

A história segue um jovem casal que decide trocar a vida em um grande centro urbano pela aventura de viver pelo campo. Só que eles encontram o terror quando viram alvos de uma entidade demoníaca que caça vidas pelas rodovias. A questão é se eles vão seguir o caminho certo ou acabar dirigindo para a morte certa.

Olha, eu até gosto de filmes ruins quando eles se assumem dessa maneira. Acho, no geral, os filmes da The Asylum divertidíssimos, mas em “Passageiro do Mal” os realizadores foram para a direção mais clichê e imbecil possível, além de se levarem a sério demais. Eu me senti de volta ao início dos anos 2000, época em que filmes de assombração como este apareciam a rodo nos cinemas.

Os protagonistas são sem sal, com pouco carisma e desenvolvimento, enquanto os coadjuvantes são folhas em branco de tão rasos. A ameaça tem um visual bem questionável e pertence àquela categoria de vilões sobrenaturais que, assim que aparecem na tela, soltam um grito “assustador”.

A direção e o roteiro estão de mãos dadas na tentativa de assustar de uma forma que virou piada há décadas. Todas as tentativas de susto são extremamente telegrafadas, e as cenas de gore com CGI ruim enterraram de vez o longa. O diretor que tinha mostrado seu talento nos longas “A Autópsia” e “A Última Viagem do Deméter“, pareceu que aqui só estava interessado no contracheque mesmo.

Um filme claramente descartável que deveria ser uma sobra de streaming, mas que jogaram no cinema para pegar besta e masoquista. Neste caso, fui os dois. Aconselho você a respeitar o seu dinheiro e fazer outra coisa com o valor do ingresso.

Escala de tocância de terror:

Título original: Passenger
Direção: André Øvredal
Roteiro: Zachary Donohue e T.W. Burgess
Elenco: Melissa Leo, Lou Llobell, Jacob Scipio e outros
Duração: 94 min

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