Dicas
DICA DA SEMANA: A Mansão dos Desaparecidos (1969)

‘Hagsploitation‘ ou ‘Psycho-Biddy‘ é um subgênero de filmes de suspense e terror que teve alta popularidade a partir dos anos 60. Essas produções recrutavam atrizes de renome que, ao envelhecer, se viram aceitando papéis de senhoras insanas e perigosas, de assustar o espectador só com o olhar, isso quando elas (as personagens) já não eram capazes de cometer assassinatos.
O marco inicial foi “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” (1962), obra-prima do terror psicológico com produção e direção de Robert Aldrich, que deu um novo gás nas carreiras de Bette Davis e Joan Crawford e foi um enorme sucesso de bilheteria.

Davis e Crawford se viram fazendo outros filmes nessa linha, como “Alguém Morreu em Meu Lugar“, “Almas Mortas” (esse com direção de William Castle), o ótimo “Com a Maldade na Alma” (também de Aldrich), todos lançados em 1964. Debbie Reynolds, Shelley Winters, Agnes Moorehead, Olivia de Havilland são outros nomes que tiveram atuações marcantes em filmes do subgênero.
O título original de A MANSÃO DOS DESAPARECIDOS (What Ever Happened to Aunt Alice?) sequer pensa em disfarçar que o sucesso de 1962 é uma forte referência. Robert Aldrich aqui foi somente produtor, deixando a direção a cargo de Lee H. Katzin, que até então tinha trabalhado mais em séries de TV.

Já no início do filme, vemos a Sra. Marrable (Geraldine Page) no velório de seu marido tendo notícias decepcionantes do advogado quanto ao testamento do falecido, que a deixará falida em poucos meses. A solução encontrada pela viúva na mesma noite é, simples assim, matar a governanta que não tem parentes mais próximos e enterra-la no jardim de sua casa, embolsando as economias que a vítima confiou para ela.
A Sra. Marrable repete o mesmo ‘modus operandi‘ em outras ocasiões, até a chegada da aparentemente ingênua ‘tia Alice’ do título, interpretada por Ruth Gordon, a nova contratada ao emprego.
Enquanto “Baby Jane” e “Com a Maldade…” tem fotografia em P&B e uma construção narrativa mais ligada ao ‘gótico sulista’, com histórias passadas em casas e mansões sombrias, escuras, decadentes, esse terceiro longa é a cores e se passa no deserto do Arizona, com uma direção de arte mais realista e contemporânea. A casa da protagonista ainda passa longe de ser uma mansão, como diz o enganoso título nacional.
O que faz esse filme não ter o brilhantismo dos anteriores são as sub-tramas com outros personagens e atores desinteressantes, o que atrapalha o ritmo. O interesse do espectador sempre diminui quando Page e Gordon não estão em cena. Afinal, é pelo duelo entre as personagens e atuações de duas grandes atrizes que temos a razão de existir da produção.

É uma falha, é verdade… mas o filme não desaponta em mais nada e A MANSÃO DOS DESAPARECIDOS é pura diversão pro fã do estilo e um verdadeiro prazer de se assistir. O diretor Katzin também faz um trabalho melhor do que o esperado na condução do suspense, gerando alguns momentos incrivelmente tensos. Atenção para a fina ironia da cena final.
A MANSÃO DOS DESAPARECIDOS está disponível no YouTube (720p), com remasterização da dublagem nostálgica de quando era exibido na TV. Fique a vontade também para saber mais do ‘Hagsploitation‘ no programa especial que gravamos para a Frei Caneca FM.
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DICA: O Mensageiro do Diabo (1955)
“O Mensageiro do Diabo” (The Night of the Hunter) é uma mistura de romance, filme policial e de terror, passado numa época penosa da vida norte-americana, a Grande Depressão ocorrida na década de 1930. Visualmente, a obra é um espetáculo à parte.

[Por Willana Almeida]*
Lançado em 1955, “O Mensageiro do Diabo” (“The Night of the Hunter”) foi um fracasso de público e crítica. Dá para entender o motivo. É um filme violento, misógino, cínico e assustador. O criminoso é um pastor, ou falso pastor (nunca fica claro), que explora a fé de suas vítimas. É também uma das maiores obras de arte que o cinema já produziu, embora isso só tenha sido reconhecido anos depois de Charles Laughton morrer, em 1962, aos 63 anos, sem nunca ter dirigido outro filme.

“O Mensageiro do Diabo” se consolidou como o grande pilar do chamado horror gótico sulista (Southern Gothic), um subgênero emaranhado em mistério, atmosfera sombria e fábulas obscuras ambientadas no sul dos Estados Unidos. A trama acompanha um falso pregador itinerante e assassino em série, interpretado de forma inesquecível por Robert Mitchum. Na cadeia, ele descobre que seu companheiro de cela guardou uma fortuna de dez mil dólares fruto de um roubo.
Após a execução do homem, o vilão parte ao encalço da família do falecido. Ele seduz a viúva, Willa (vivida por Shelley Winters), e passa a perseguir impiedosamente os dois filhos pequenos em uma caçada ao longo do rio para tomar a fortuna para si. O que começa como uma história policial transforma-se gradualmente em um conto de fadas sombrio e poético, adornado por paisagens aquáticas, florestas misteriosas e uma imanência de perigo constante.
A história é inspirada na vida de Harry Powers, um assassino serial que foi enforcado em 1932 pelo assassinato de mulheres e crianças. Galante, Powers seduzia viúvas, roubava seu dinheiro e depois as matava. Sua saga virou livro em 1953 e filme em 1955. Laughton, o grande ator que fizera fama nas décadas de 1930 e 1940 em sucessos como “Os Amores de Henrique VIII” (1933), “O Grande Motim” (1935) e “O Corcunda de Notre Dame” (1939), reuniu um time primoroso para o filme. A fotografia é de Stanley Cortez, que havia feito “Soberba” (1942), de Orson Welles, e faria “Shock Corridor” (1963) e “Naked Kiss” (1964) com Samuel Fuller.
O roteiro, com uma sensível estética refinada, é do autor e crítico de cinema James Agee, uma das maiores influências na crítica cinematográfica para nomes como Roger Ebert e Pauline Kael mas que acabou sendo finalizado pelo próprio Laughton devido a problemas de saúde de Agee. Além dos já citados Robert Mitchum e Shelley Winters, o elenco ainda conta com a lendária Lillian Gish, grande atriz do cinema mudo que viria a ter uma carreira de 75 anos em Hollywood, estreando em 1912 e encerrando em 1987.

Mas não dá para confinar “O Mensageiro do Diabo” num único escaninho. É uma mistura de conto de fadas, filme policial e de terror, passado numa época penosa da vida norte-americana, a Grande Depressão ocorrida na década de 1930. Visualmente, a obra é um espetáculo à parte. A fotografia magistral de Stanley Cortez bebe diretamente na fonte do expressionismo alemão dos anos 1920. O uso ostensivo de sombras, silhuetas marcantes e um contraste intenso entre o claro e o escuro remetem a clássicos como “Nosferatu” e “O Gabinete do Doutor Caligari”. Há uma cena em que Powell e Willa estão no quarto e a iluminação e a cenografia lembram muito o clássico alemão de Robert Wiene. Em outra, há um close de Willa deitada na cama onde remete a “A Paixão de Joana D’Arc” (1928), de Dreyer.
Tão interessante quanto buscar as referências que influenciaram “O Mensageiro do Diabo” é perceber como o filme influenciou tanta gente. Há uma cena de Harry Powell na porta da casa de Willa que é muito parecida (para não dizer idêntica) com a imagem do cartaz de “O Exorcista”, que William Friedkin faria quase 20 anos depois. O emblemático cartaz e a famosa tatuagem nos punhos de Powell com as palavras AMOR e ÓDIO transformadas na soqueira do personagem Radio Raheem no filme “Faça a Coisa Certa”, de Spike Lee, são referências diretas a essa masterpiece.
Impossível não imaginar David Lynch e Cronenberg passando longas noites vendo e revendo essa beleza. Martin Scorsese seguramente o usou como referência para a fotografia preto e branco de “Touro Indomável”, e outros clássicos do terror psicológico, como “Peeping Tom” (1960), de Michael Powell, parecem ter se inspirado nas imagens de Stanley Cortez.

A carolice do público e a indiferença da crítica tentaram, mas não conseguiram, fazer arrefecer o vigor dessa história forte que o tempo tratou de fazer-lhe justiça. Hoje alçado ao status de cult, “O Mensageiro do Diabo” influenciou gerações de cineastas e foi eleito pela prestigiada revista Cahiers du Cinéma numa de suas inúmeras listas como o segundo melhor filme de todos os tempos, atrás apenas de “Cidadão Kane”. Um clássico visceral que transforma a experiência do espectador e permanece eterno na memória de quem o assiste. Bizarro e inesquecível.
* Especial para o Toca o Terror
** “O Mensageiro do Diabo” está disponível no catálogo da Amazon Prime/MGM+
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Para a dica desta semana eu trago um filme aniversariante: O EXORCISTA III (Exorcist III), escrito e dirigido por Willam Peter Blatty, completa 32 aninhos neste mês de agosto.

O EXORCISTA III é adaptação do livro ESPÍRITO DO MAL / LEGIÃO (Legion, 1983) que é uma continuação direta do livro O EXORCISTA (The Exorcist, 1971). Na trama, o tenente Kinderman investiga uma série de assassinatos que trazem a assinatura do já conhecido serial killer: Gêmeos. O problema é que este assassino está morto há 15 anos. Com a ajuda do amigo padre Joseph Dyer, ambos são levados a revelações cabulosas.

Blatty exibe um domínio enorme na condução do longa. E não é de se espantar, já que é o autor de ambos os livros. Aqui, com a direção em suas mãos, ele imprime sua real visão da própria obra, mantendo um clima constante de tensão como se algo de muito pior fosse acontecer a cada cena. A fotografia do Gerry Fisher é essencial para dar o tom sombrio à trama. Até estátuas sacras dão medo aqui! Sem contar que O EXORCISTA III tem um dos sustos e jumpscares mais cabulosos e inesperados da história do cinema de horror.

Para além da competente produção, o longa conta com a carismática dupla George C. Scott e Ed Flanders, (Kinderman e Dyer respectivamente), Brad Dourif que encarna o assassino de Gêmeos nos conferindo uma performance assustadoramente brilhante e Jason Miller vivendo o sinistro “paciente X”.

É de fato um filme incrível que, para este que vos escreve, por muito tempo foi subestimado por ser o terceiro da franquia O EXORCISTA, quando na verdade deveria ter sido o segundo, já que, como dito no início, se trata da continuação direta do livro. E convenhamos que depois do que rolou em O EXORCISTA 2: O HEREGE, carregar um título desse também não ajuda. Este longa de 1990 poderia ter se chamado simplesmente LEGIÃO como no livro, mas enfim…

Em suma, O EXORCISTA III é um típico terror policial cabuloso que merece ser visto. Ficou curioso? Aproveita que este clássico cult encontra-se no catálogo do HBO Max.
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Muito antes do canal SyFy e da Asylum inventar as bizarrices mutantes de tubarões mesclados com jacarés e coisa do gênero, havia uma turma que pegou carona na fórmula de “Tubarão” e espremeu até o bagaço. Então se você estiver a fim de ver um filme deste tipo sem pensar muito, vá até o YouTube e procure por “Humanoids from the Deep“, também conhecido pelo título genérico de “Monster“.
(mais…)
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